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domingo, 7 de junho de 2015

Cafeteira, uma lenda da política que luta para viver um século

Uma foto divulgada na internet reacendeu o lendário interesse pelo ex-deputado federal, ex-prefeito de São Luís, ex-governador do Maranhão e ex-senador Epitácio Cafeteira, já entronizado na galeria dos mais ativos e mais importantes políticos do Maranhão nos últimos 60 anos, visto por muitos como o grande adversário do ex-presidente José Sarney. A foto mostra Cafeteira no que parece ser um leito hospitalar, sorrindo, tendo ao lado as duas pessoas mais importantes da sua vida: a esposa Isabel Cafeteira e a filha Janaína. O ar de descontração num ambiente tão formal causa a impressão de que, apesar dos problemas de saúde que vem enfrentando na última década seu estado de ânimo continua como sempre, muito elevado e dominando a postura de cidadão, chefe de família e de líder político vitorioso, apesar de alguns tropeços eleitorais.
O agora político aposentado Epitácio Cafeteira Afonso Pereira é uma figura ímpar, não apenas pelo seu desempenho político, mas principalmente pelas adversidades que teve de superar para construir uma carreira incomparável no cenário político do Maranhão, na maior parte do temo em confronto aberto com José Sarney. Orador ferino com uma incrível capacidade de se comunicar com  a massa, foi suplente de deputado federal em 1962, conseguiu assumir a vaga e, de pronto, apresentou emenda à Constituição Federal restabelecendo a eleição para prefeito de capital, que na época era nomeado pelo governador. Fez uma campanha tão intensa dentro do Congresso Nacional que sua proposta foi aprovada por larga maioria. Essa vitória o colocou no centro da disputa para a Prefeitura de São Luís em 1965 e da qual saiu com uma vitória acachapante sobre o ex-prefeito Ivar Saldanha, apoiado pelo então governador Newton Bello.
O Maranhão vivia uma onda de euforia com a eleição do jovem governador José Sarney. Mas as idiossincrasias da política acabaram por colocar o prefeito de São Luís e o governador do Estado em situação de confronto. Com forte apoio popular e pesando bem cada movimento, Cafeteira se manteve de pé no embate com o governador. A briga chegou a tal ponto que Sarney teria sugerido aos militares a cassação de Cafeteira, que passou um período de duas semanas dentro do Palácio de la  Ravardière disposto a só entregar o cargo num conflito armado. Não aconteceu nem uma coisa nem outra e o prefeito saiu da guerra politicamente mais forte do que entrou.
A oportunidade de dar o troco em José Sarney (Arena) veio na eleição de 1970 para o Senado. Cafeteira (MDB) se candidatou exatamente para disputar a vaga com o ex-governador. Perdeu a eleição na sua maior base, São Luís, para um economista sem maior expressão, José Mário Ribeiro da Costa (MDB), que venceu os dois por larga maioria. A derrota para o Senado foi um golpe duro, que o deixou sem mandato por quatro anos. A reabilitação veio em 1974, 1978 e 1982, três eleições seguidas para deputado federal e com votação crescente a cada pleito.
O grande “pulo do gato” se deu em 1984, quando Sarney, rompido com o regime militar, criou a Frente Liberal e se aliou ao MDB em torno da candidatura de Tancredo Neves a presidente da República. A cúpula do movimento quis Sarney como candidato a vice, mas para isso ele precisava do aval do comando do PMDB no Maranhão. Hábil, Cafeteira não deixou que o então deputado federal Cid Carvalho e o futuro ministro Renato Archer, que junto com ele formavam a trindade pemedebista maranhense, criassem problema e antecipou seu apoio à filiação de Sarney ao PMDB maranhense, saindo do episódio com o compromisso de que, se Tancredo e Sarney fossem eleitos, os dois dariam apoio incondicional à sua candidatura do Governo do Estado. Tudo aconteceu como ele imaginou. Sua candidatura a governador uniu a sua forte liderança pessoal e o prestígio de Sarney no embalo do Plano Cruzado. A campanha o transformou num fenômeno eleitoral, pois pela primeira vez um candidato a governador no Maranhão bateu o patamar de 1 milhão de votos, o que representou quase 80% da votação, deixando o seu adversário, o então senador João castelo, com apenas 20%.
Cafeteira e Sarney conviveram harmonicamente até o último dia do mandato presidencial, tanto que fez questão de descer a rampa do Palácio do Planalto junto com Sarney em meio a vaias e aplausos. As divergências e o novo rompimento vieram com as eleições de 1990, sob a presidência de Fernando Collor, com quem Cafeteira flertou no primeiro momento. Sarney queria ser candidato a senador pelo PMDB do Maranhão. Cafeteira também, e se juntou a Renato Archer e Cid Carvalho, que o apoiaram. Sarney, que previra a reviravolta, usou o Plano B montado no Amapá. Os dois foram eleitos e se mantiveram em campos opostos.  Nos anos 90, Cafeteira amargou duas derrotas eleitorais, ambas para Roseana Sarney. A primeira em 1994, quando os dois foram para o segundo turno e ela o venceu por uma diferença de apenas 18 mil votos, o que ensejou uma briga judicial que não mudou o cenário. A segunda em 1998, quando Roseana Sarney se reelegeu no primeiro turno. Sofreu outra derrota em 2002, quando disputou vaga de senador com João Alberto.
As derrotas seguidas deixaram a impressão de que o caminho do político genial seria a aposentadoria. Ledo engano. Em 2006, surge uma nova aliança com Sarney, que o convidou para ser candidato a senador porque no seu grupo não tinha nome com força para enfrentar João Castelo, este aliado a Jackson Lago. Resultado: Jackson venceu a eleição para governador, mas Cafeteira derrotou Castelo, numa reviravolta espetacular. Cumpriu seu mandato enfrentando sérios problemas de saúde, entre eles um derrame que e tirou os movimentos das pernas e o obrigou a usar cadeira de rodas. Mesmo assim, participou da maioria das sessões do seu mandato de oito anos, sendo apontado como um dos senadores mais regulares daquela legislatura.
Político solitário, que sempre confiou mais na sua relação direta com o eleitorado por atos e gestos que muitos identificam como populistas, Epitácio Cafeteira deixou marcas fortes por onde passou como detentor de mandato. Na Prefeitura de São Luís, cuidou de atender a demandas da população mais pobre, o que reforçou a visão quase messiânica de largas faixas do eleitorado. Mas também tomou decisões polêmicas que ensejam críticas até hoje: suspendeu os bailes de máscara durante o Carnaval, uma tradição de São Luís e retirou os últimos bondes que circulava, na Capital.
Como governador, Cafeteira realizou uma obra, que se não foi grandiosa, também não sofre críticas. Uma das mais importantes foi o Projeto Reviver, no qual foi realizada a grande base que, anos mais tarde, garantiria o título de Cidade Patrimônio Cultural da Humanidade. O governo Cafeteira foi movido por um claro senso de Justiça, pois nele as pessoas mais pobres se sentiram mais seguras, exercitando a cidadania. Para citar apenas um exemplo: como governador ele não permitiu que a Polícia Militar fosse usada para garantir o cumprimento de reintegração de posse em áreas de propriedade duvidosa.
Cafeteira também enfrentou denúncias e acusações, que tentaram colocá-lo no banco dos políticos de trajetória rasurada. Uma reportagem publicada pela revista em 1990 relatou uma situação que, se verdadeira, ligaria o então ex-governador e candidato a senador a um esquema de corrupção. Cafeteira reagiu com indignação, respondeu politicamente em tom agressivo e, para muitos, demonstrou que estava sendo vitima de uma armação. Enfrentou também o nebuloso Caso Reis Pacheco, que foi acusado de mandato dar fim num funcionário na Vale que num acidente automobilístico matou o seu sogro e grande amigo, vereador Hilton Rodrigues. Localizado no interior do Pará, Reis Pacheco está vivo até hoje e afirma categoricamente que não foi vítima de uma tentativa de assassinato. Também do Caso Reis Pacheco Cafeteira saiu ileso, mantendo intacta sua história pessoal e politica.
Além da família, Cafeteira tem uma paixão: o xadrez, que joga com um grupo fechado de amigos. Seu fascínio por esse jogo é tão forte que ele em alguns momentos bancou, do próprio bolso, temporadas de Mequinho, um dos maiores enxadristas de todos os tempos, no exterior. É também um home  de gosto refinada, gosta de roupas bem talhadas, tem sempre um pente ao alcance da mão e jamais relaxa o nó da gravata. Gosta também de carros de marcas europeias, como a alemã Mercedes, o exemplo. Nunca, porém, foi visto em atitude esnobe.
É esse Cafeteira que saiu da cena política e agora vislumbra outra conquista: driblar os problemas de saúde para completar um século de vida. Essa luta traduz o clássico refrão da sua música de campanha para governador: “Cafeteira tem a fibra de um lutador. Cafeteira é povo unido, meu governador”.


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