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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

OPINIÃO: SOU DEFICIENTE. E DAÍ?

 SOU DEFICIENTE. E DAÍ?
Por Abdon Murad, advogado
Outro dia cheguei para os meus sócios e fiz uma brincadeira. Disse sério para um deles: “Fulano não quero que você receba mais aqui no escritório determinada pessoa (esclarecimento: essa pessoa é deficiente, como eu). Meu sócio levantou-se assustado e me perguntou: Mais porquê? O que ele te fez? Respondi-lhe: “é o seguinte, fulano tem muitos assuntos com a polícia, vai que resolvem prendê-lo, chegam aqui e prendem o ‘aleijado’ errado?” Todos que estavam na sala caíram na gargalhada.
Conto esse episódio apenas para mostrar que ser deficiente e falar sobre isso não é um tabu na minha vida. Ser deficiente é apenas mais uma das minhas características. Tanto não é tabu que nunca tratei desde assunto, se faço agora é porque li por ai, que um dos motivos que ensejaram o rei Roberto Carlos, meu cantor favorito, a pedir à Justiça que não fosse divulgada sua biografia seria o acidente que sofrera quando criança, no qual perdeu parte da perna direita. Não sei se é verdade.
Talvez essa informação não seja verdadeira uma vez uma de suas mais lindas canções, “o divã”, fala do assunto. Em sendo verdade o rei ainda não saiu do “divã” tampouco superou seus “traumas”, mas isso são apenas “detalhes”. Vamos ao assunto do texto, efetivamente.
Tive poliomielite com pouco mais de um ano de idade, já se vão mais de quarenta. Morando num povoado, com pais analfabetos, o acesso as medidas preventivas como vacinação eram praticamente inexistentes. Assim sendo, eis que naquele tempo o vírus da poliomielite me alcançou, meus pais não faziam ideia do era, fizeram alguns tratamentos caseiros. Como os sintomas não arrefeciam, minha mãe pegou um animal (não haviam estradas), me levou a cidade mais próxima, onde, de lá, a bordo de um pau-de-arara, fomos para Teresina (PI), onde recebi os primeiros cuidados e fui salvo da morte certa (alguém ainda cobrará o porquê de me deixarem “vivinho da silva”. Rsrsrs), ficando com as sequelas. Aqui abro um parêntesis: Os que pensam e alardeiam que o Maranhão mudou e avança cada vez mais rumo ao melhor destino: mais de quarenta anos depois, a grande maioria da pessoas, senão 100% delas, que moram na região do Mearim e adjacências, continuam se socorrendo na rede hospitalar do estado vizinho. E viva o Piauí!
Retorno. Durante os primeiros anos depois da pólio, eu que já andava e corria para todos os cantos, tive que reaprender a andar. Anos depois, fiz um novo tratamento, no Hospital Getúlio Vargas de Teresina, que não resultou em melhora alguma. Recentemente, coisa de uns cinco anos, senti minhas pernas fraquejarem, busquei um tratamento na rede Sarah de São Luís, não era nada demais, o corpo e os anos pesaram mais e tive que buscar apoio numa bengala, a qual alguns amigos dizem que me tornou mais elegante.
A vida da pessoa com deficiência possui limitações, claro. Umas mais outras menos, entretanto, mais importante que as limitações é a vida. É verdade que muitas coisas que deixei de fazer atribuindo à deficiência o fato de não tê-las feitos, deve se ao fato de não haver tentado. Cada um tem sua forma de lidar com suas chagas. A cada um o fardo, qualquer deles, pesa de uma forma distinta.
Quando a mim, costumo dizer que a deficiência não me fez melhor ou pior que ninguém, ela me fez diferente. Talvez, sem ela minha vida tivesse ganhado um outro rumo, se melhor ou pior, não perco tempo indagando. As limitações nos privam de muitas coisas. Ninguém gosta, e com razão, de ser privado de algo. Acho que nunca realizarei o sonho de ser astronauta ou de escalar o Himalaia. Fazer o quê? Tenho que aprender a viver com o que já tenho e ser grato por isso. Por ser deficiente não sou credor de Deus ou da humanidade, além do mais, na minha mente já fui a Lua, a Marte e já escalei todos os picos do mundo, mais de uma vez. E sem dificuldade ou custo algum.
Vivemos em um mundo que não é preparado para as pessoas diferente, um mundo hostil, intolerante, até. Ruas sem calçadas, escadas e rampas perigosas, pessoas mal-educadas ocupando as vagas preferenciais. Todos os dias são desafios e temos que aceitar e lutar para que um dia muitos destes males sejam corrigidos.
Sempre acreditei que aceitar os infortúnios como desafios e não como motivos para desistências nos fazem mais fortes, senão fisicamente, com certeza espiritualmente, pois com eles você aprende a valorizar o que efetivamente tem valor, aprende a enxergar as superficialidades com as quais nos defrontamos, a repeli-las e entender, finalmente, que ser diferente é normal.
A prova maior de que estamos crescendo enquanto pessoa é termos a agradável capacidade de não nos martirizarmos e a rirmos de nós mesmos, dos nossos receios, pecados e deficiências. Ri de si mesmo é uma extraordinária virtude. Muitas das vezes o problema não é como as pessoas nos vêem e sim como nós nos vemos. Pensem nisso.
 Nota do Blogueiro:
Sou do povoado lages, zona rural de nova Iorque, Ma. Ao ler esse depoimento me  sentir representando e emocionado. Foi como um filme que reprisou na minha cabeça. Meu irmão José Normam Varão, há exato 40 anos (que hoje tem 43 anos), passou por esse mesmo calvário. Vendo o sofrimento e o desespero do meu pai José Martins e da minha Vasti. A história do Abdon é idêntica a que aconteceu com ele. A diferença que não ficaram sequelas físicas. 
Martin Varão

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